Paulo Schmidt

O paulistano Paulo Schmidt já estudou Art & Design em Nova York, na escola Pratt Institute. Foi editor de 1998 a 2003. Sua casa editorial, a Campanário, publicou obras de Alexandre Dumas, Victor Hugo e H. P. Lovecraft, entre outros autores clássicos. De 2004 a 2007 traduziu documentários do The History Channel para a TV a cabo. Em 2004 publicou em edição limitada (e já esgotada) o romance A apoteose de Orfeu, uma narrativa policial que se passa no ano 26 a.C. na cidade de Alexandria, no Egito. Escreveu, mas ainda não publicou, o romance histórico Herodes, que tem como protagonista aquele rei bíblico célebre por não gostar de crianças. Está escrevendo outro romance, uma fantasia histórica que parte da seguinte idéia: Napoleão não teria morrido na ilha de Santa Helena em 1821; ele teria escapado de sua prisão e fugido para o Brasil. Schmidt é também ilustrador e diagramador.

A trajetória do serial killer mais temido do mundo é esmiuçada por autor brasileiro

“Jack, o Estripador”, de Paulo Schmidt, a obra mais esclarecedora sobre o tema já escrita, contesta a norte-americana Patricia Cornwell e diz que a teoria dela é puro “lixo”

  Se você acha que sabe tudo ou pelo menos alguma coisa da história de “Jack, o Estripador”, está redondamente enganado. Nem mesmo se for tão aficionado pelo tema como o paulistano Paulo Schmidt, que não mediu esforços para produzir a mais completa obra já escrita sobre o mais famoso e misterioso serial killer da História. “Jack, o Estripador – a verdadeira história, 120 anos depois”, profusamente documentada e ilustrada, vai até onde nenhum outro livro jamais ousou ir. Escrito como uma reportagem investigativa, o livro desse brasileiro vai sem dúvida surpreender.

  Paulo Schmidt compra uma polêmica com a escritora norte-americana Patricia Cornwell, para quem o Estripador seria o pintor esteticista Walter Sickert. “Esta é provavelmente uma das mais absurdas de todas as teorias”, contesta Schmidt. “Mas como as pessoas pouco conhecem sobre o assunto e ela coloca o subtítulo “caso encerrado” no seu best-seller, muitos que leram esse lixo disseram “amém”. Senti que estava na hora de surgir, aqui no Brasil, uma obra que informasse os fatos às pessoas, para que elas pudessem investigar por si próprias antes de acreditar em qualquer lorota sobre o Jack”.

  Seguindo a pista dos registros históricos e das teorias, até as considerações atuais, a obra foi dividida em três partes: “Os fatos”, “Os suspeitos” e “120 anos depois”. Cada capítulo é narrado de maneira concisa e detalhada, numa amarração que prende o leitor, incapaz de largar a leitura mesmo com a certeza de que o livro não esclarecerá o principal mistério: quem foi, afinal, o assassino. Para saciar a curiosidade do leitor, ao mesmo tempo em que a estimula, Schmidt tenta responder até a mais incomum das perguntas: “Jack, o Estripador pode ter sido uma mulher?”

  O misto de lenda com a veracidade dos fatos provoca a discussão. Como toda boa história, tem lacunas, mistério e faz o leitor fechar o livro, imaginar as cenas e aguardar por mais uma descoberta, mesmo que ela possa parecer muito óbvia ou improvável. Num tom de romance, esta obra sintetiza tudo o que realmente se pode saber sobre Jack.

  A recuperação do perfil das vítimas e a isenção na hora de recontar as cenas do crime são os marcos deste estudo. O que o autor propõe não é apenas apontar um culpado ou dar estereótipos ao assassino. Paulo Schmidt convida para uma apaixonante investigação, sem inventar. “Tire a sua própria conclusão”, provoca o autor.

Entrevista com Paulo Schmidt

  O que motivou a escrever sobre este assassino tão temível? Curiosidade ou fascínio por histórias trash?

Paulo Schmidt – Para quem cresceu lendo Conan Doyle e Agatha Christie, não existe vacina contra o fascínio exercido por ele, ou pelo mistério que o cerca. Mas o que realmente me motivou foi a desinformação existente sobre o tema. Por exemplo, essa recente teoria da Patricia Cornwell de que o Estripador seria o pintor esteticista Walter Sickert é provavelmente uma das mais absurdas de todas; mas como as pessoas pouco conhecem sobre o assunto, e ela coloca o subtítulo “caso encerrado” no seu bost-seller, muitos que leram esse lixo disseram “amém”. Senti que estava na hora de surgir, aqui no Brasil, uma obra que informasse os fatos às pessoas, para que elas pudessem investigar por si próprias antes de acreditar em qualquer lorota sobre o Jack.

O livro é muito rico em pesquisa. Quanto tempo você levou para obter os relatos, investigações, enfim toda a trajetória assassina de Jack? Quais foram as dificuldades?

Reunir todo o material e pesquisá-lo durou um ano; colocá-lo por escrito demorou três meses. A maior dificuldade foi separar o joio do trigo, isto é, as informações pertinentes das que não prestam. O joio é sempre mais abundante.

 

Você teve acesso a algum documento original, ou conseguiu estes por meio de outros autores?

Como o caso é bem antigo, todos os documentos originais disponíveis já foram fotografados e cópias vêm circulando na mídia há décadas. Muitas podem ser obtidas na internet. Grande parte dos documentos remanescentes foi conservada pela imprensa britânica, inclusive as atas de alguns dos inquéritos policiais; a própria polícia perdeu quase todos os arquivos referentes aos assassinatos de Whitechapel, e o sumiço de tanto material é um dos não poucos mistérios do caso. Mas esses documentos originais são de importância relativa, pois consistem, na sua maioria, em cartas supostamente escritas pelo assassino. Ora, é sabido que ele não escreveu nenhuma delas, com a única possível exceção da famosa carta remetida “Do inferno”, aquela que trazia de brinde um pedaço de rim.

 O Estripador costumava deixar várias marcas nas vítimas? Na sua opinião, qual a mais evidente, aterrorizante?

Sabe-se que, após estrangulá-las e cortar suas gargantas, ele mutilava o abdome delas, quase sempre extraindo algum órgão. Ao que tudo indica, as mutilações eram mais importantes para ele do que matar, pois ele corria riscos enormes e perdia muito tempo removendo úteros e coisas assim. Sua necessidade de mutilar era tão premente, que quando não teve tempo de fazê-lo em Liz Stride, uma das vítimas, a quem apenas degolou, o maníaco tratou de matar outra naquela mesma noite, e cortou-a dos pés à cabeça. Ora, até hoje ninguém sabe ao certo por que ele se dava ao trabalho de fazer tais abominações. Não havia estudos sobre assassinos seriais na época, por isso muitos vitorianos, tentando explicar tamanha aberração, achavam que o assassino era fornecedor de algum mercado negro de órgãos. Para nós, filhos incestuosos de Freud que somos todos, é óbvio que Jack não era exatamente bem resolvido sexualmente, mas não sabemos a extensão dessa tara, nem o que a causou.

 

De todos os suspeitos listados, qual acredita ser o Jack? Por quê?

É difícil dizer, pois como as investigações foram mal conduzidas desde o início, os suspeitos propostos ao longo de 120 anos refletem mais os preconceitos e fobias dos investigadores do que possibilidades concretas de identificação. Como em Londres, na época dos crimes, boa parte dos ingleses achava que o assassino era um estrangeiro – já que um inglês, na opinião deles, nunca cometeria tais atrocidades –, a polícia acusou preferencialmente imigrantes. Outro dos principais suspeitos da Scotland Yard, o norte-americano Francis Tumblety, era homossexual, e não se fazia então distinção entre homossexual e maníaco sexual (o que Jack certamente era). Outro exemplo: pouco depois de os bolcheviques terem tomado o poder na Rússia em 1917, começou a circular no Ocidente um boato de que o Estripador era um médico russo que se vestia de mulher. Por fim, na fase pós-hippie da década de 70, o antimonarquismo fez ficar em voga um novo suspeito: o príncipe Alberto Vítor, neto da rainha Vitória.

O que acha da Scotland Yard daquela época e da atual? Já que atualmente é reconhecida por ter os melhores detetives do mundo, em contraste ao desempenho demonstrado neste caso.

A Scotland Yard é hoje uma força policial moderna e competente, embora ainda com certa dificuldade em admitir erros, como ficou provado pelo comportamento discutível deles após matarem por engano aquele rapaz brasileiro, o Jean Charles de Menezes, em 2005. Na época do Jack, a Polícia Metropolitana era conservadora, mal equipada e totalmente despreparada para enfrentar assassinos seriais, um tipo de criminoso que eles não compreendiam. A despeito da sua limitação, fizeram o melhor que podiam, mas só depois que a imprensa começou a fazer alarde sobre os assassinatos. Foi uma das primeiras ocasiões, talvez a primeira na História, em que a pressão da imprensa forçou um órgão público a cumprir o seu dever.

Qual foi o papel da imprensa na cobertura dos assassinatos do Estripador?

Logo que a imprensa britânica, que estava se expandindo muito nessa época, percebeu que o Estripador vendia jornal, não largou mais o osso. Os periódicos socialistas, por sua vez, usaram Jack para seus objetivos políticos, como um pretexto para atacar o governo por causa da miséria do East End, cenário dos crimes do Estripador. Se por um lado a imprensa cumpria seu dever de informar a população, por outro deturpava os fatos a fim de aumentar sua circulação, como os tablóides britânicos sensacionalistas de hoje. Foi assim que um assassino de meia dúzia de mulheres acabou transformado num monstro gótico e bicho-papão de adultos. E a conseqüência mais nefasta de mitificar tamanho facínora foi que isso motivou gerações de facínoras a imitá-lo. Em escala menor, a gente vê esse tipo de coisa no Brasil, tem quem ache que ser bandido é passaporte para a fama, um meio de aparecer na TV. Seria melhor que a imprensa não desse cobertura a criminosos, mas ao mesmo tempo ela não pode se furtar ao dever de noticiar tudo que acontece. É um beco sem saída.

Jack, o Estripador - a verdadeira história, 120 anos depois

Autor: Paulo Schmidt - Reportagem

Formato 16x23 cms, 240 págs.

ISBN: 978-85-61501-08-2

Cód. barra: 978-85-61501-08-2

Peso: 0.35 kg.

R$ 39,90

Fernando Jorge

Escritor e Jornalista

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